BREVE INTRODUÇÃO À RESSIGNIFICAÇÃO DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO*
Este texto refere-se à idéia de Desenvolvimento Responsivo, com a intenção de começar a caracterizar, notificar e conceituar, para alcançar uma definição adequada. São apenas fragmentos desordenados, sem coesão concreta, embora a abstrata esteja presente. Há uma linha lógica que dá direção e sentido aos fragmentos, no entanto, não é o caso de neste momento demonstrá-la, devido a necessidade de começar a apresentar algumas idéias para uso imediato.
Outra intenção é apresentar algumas idéias para a posterior discussão entre os posiveis interessados na ideia, e elaboração de um documento oficial que sirva de orientação para textos, artigos, revistas e livros que abordem o tema, porém, de forma minimamente unificada. A elaboração deste documento, caso as entidades se alcance o entendimento da sua necessidade, poderá ser elaborado em seminários internos, com vistas a explorar a riqueza de um conceito emergente que pode vir a representar um instrumento de debate no campo intelectual às propostas globalistas que sem materializaram no Movimento do Desenvolvimento Sustentável, e de certa forma foram precursoras das atuais ações que procuram implantar uma Nova Ordem Mundial.
Reconhecemos que podem existir
obstáculos à proposta de reconceitualização do desenvolvimento, tendo em vista
que muitos estudiosos do tema, assim como de temas tangentes ou complementares,
foram seduzidos pelo conjunto orquestrado de ideias reunidas organicamente sob o nome de desenvolvimento sustentável. É isto perfeitamente compreensível devido ao enorme esforço de convencimento realizado
pelos seus proponentes. Como sabemos, é muito difícil alguém se desfazer de
crenças que são cridas como verdades incontestes.
Todos os fragmentos de idéias
foram colocados aqui para serem discutidos, confrontados, reduzidos, ampliados,
melhorados, transformados e até destruídos, se este for o caso.
Nenhuma proposta teórica científica surge em um vazio. Caso isso viesse a acontecer não seria ciência, mas uma revelação extra-física, não-histórica, desconectada do processo normal de progresso do conhecimento. Elas sempre têm como referencia uma idéia, um paradigma ou uma teoria a quem se contrapõem.
A maneira de destacar uma
filosofia específica de, por exemplo, uma filosofia Geral é contrastar duas
genéricas, ou duas específicas, para destacar suas semelhanças e diferenças. É
uma questão óbvia que se duas filosofias não tiverem qualquer diferença, serão
idênticas, o que quer dizer que serão uma única filosofia. Pode-se dizer que
este processo se parece com a técnica do Raio-X de um órgão humano, que distingue
as partes mais densas das menos densas e cujas diferenças aos olhos do especialista
representam como que uma fotografia. Este processo de revelação de diferenças e
semelhanças pode ser aplicado às diversas propostas de desenvolvimento. No caso
deste “pré-ensaio” o desenvolvimento sustentável é usado como pano de fundo
para destacar o que seria uma proposta de desenvolvimento diferenciado, que
aqui denominamos de Desenvolvimento
Responsivo.
Para o início de uma contextualização: Tendências Convergentes
O processo geral de
desenvolvimento de uma sociedade ainda é uma área quase virgem. É verdade que
desde o término da Segunda Guerra Mundial, quando o então presidente dos EUA,
Henry Truman, passou a classificar os países segundo o grau de desenvolvimento,
é que este tema começou a ocupar com maior atenção dos estudiosos, principalmente
os economistas. Várias hipóteses e teorias surgiram, mas de forma geral, as
principais causas, os efeitos esperados, as relações entre os elementos, e o
processo, ainda não alcançaram a estabilidade teórica; a confirmação disso é
verificada quando muitas hipóteses e teorias disputam a proeminência no campo
em estudo. Muitas dessas hipóteses e teorias foram sendo desconsideradas, uma a
uma, porque eram pesquisadas usando perspectivas reducionistas.
Até os anos noventa desenvolvimento era sinônimo de crescimento econômico, e este crescimento também referia-se geralmente a aspectos reduzidos do fenômeno em questão, como o grau de industrialização, a modernização de estruturas, o aumento do produto interno, ainda que este ficasse altamente concentrado.
Outrossim, o desenvolvimento era imaginado como uma escala de etapas sucessivas intransponíveis. A partir dos anos noventa outros métodos de pesquisa foram aplicados, o que permitiu ampliar a observação do fenômeno e descobrir fatores que antes não haviam sido identificados. A partir daí o desenvolvimento integrou outras perspectivas, como o desenvolvimento humano, supletivamente ao desenvolvimento econômico. Ao simples crescimento econômico foram adicionados os fatores “distribuição de renda”, a liberdade de iniciativa, entre outros. Posteriormente, foram desenvolvidos os Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH), incluindo outros fatores, tal como o saneamento básico.
Mas a principal contribuição foi aquela que considerou o
Desenvolvimento como Liberdade. Nesta teoria, a liberdade foi vista em sua
multiplicidade, tanto “as liberdades” (Liberty e Freedom), isto é, a liberdade
extrínseca ao Homem, como as intrínsecas a ele; esta última foi denominada “Capacidade”
(Capability). Assim, Desenvolvimento passou a ser visto também como um conjunto
sinérgico com dois aspectos complementares e inseparáveis, o econômico e o
humano. No aspecto econômico a distribuição da renda continuou sendo um fator
essencial, o que ligou esta teoria com as economicistas que a antecederam. E
dentro do espectro do Desenvolvimento Humano as “capacidades” tomaram assento
definitivo. Porém, a teoria do Desenvolvimento Como Liberdade estabeleceu uma
diferença fundamental, ao afirmar a não-conversibilidade completa entre renda e
capacidade. A hipótese é a seguinte: toda capacidade pode ser convertida em
renda, mas a renda nem sempre pode ser convertida em capacidade.
Um olhar retrospectivo
sobre estas teorias evidenciará que tiveram como berço as teorias de matriz
economicista. Pode-se dizer que as teorias surgidas a partir dos anos noventa
do século passado são uma variante ampliada das idéias de matriz economicista
das décadas anteriores. Contudo, a “teoria do desenvolvimento sustentável”,
embora a sua espinha dorsal seja ainda e completamente economicista, de certa
forma, teve um desenvolvimento paralelo e simultâneo, a partir dos anos setenta
do século passado.
Em 1973 foi apresentado
o relatório do “Clube de Roma”. A proposta contida neste documento seguia,
ainda que economicista, um caminho divergente, porquanto defendia o
“Crescimento Econômico Zero” de todas as nações do mundo. Era como se o mundo
econômico devesse ser congelado naquele instante e cada um deveria arcar com os
seus problemas e sofrer as conseqüências de não ter atingido um patamar
adequado de desenvolvimento: Ricos continuariam ricos, e pobres continuariam
pobres, sem condições de ascensão. Naquele período já estava evidente que o
ciclo de riqueza iniciado com o fim da Segunda Guerra Mundial atingira o seu
crepúsculo. A “Era de ouro” chegava ao fim e era preciso pensar como seria o
mundo daí para diante. Havia também pessimismo generalizado, tendo em vista a
guerra fria e a probabilidade do planeta ser literalmente explodido por
milhares de bombas nucleares. Problemas econômicos e sociais abundavam. Para
piorar a situação, a população mundial estava crescendo sem que os governos e
seus economistas conseguissem apresentar modelos adequados para resolver os
graves problemas que se apresentavam. No mundo ocidental as ideologias
comunistas grassavam, levando diversos governos a implantaram ditaduras no
intuito de impedir o avanço das guerras subversivas e o domínio dos seus países
pelos comunistas.
Quase duas décadas antes,
Fidel Castro logrou derrubar o governo de Cuba e assumiu o poder. Logo após
declarou pela primeira vez que era marxista. Uma ilha do Caribe, deitada no
mar, a poucos quilômetros da costa norte-americana, instalou um dolorido
espinho no mundo capitalista. Esta ilha foi o centro de convergência dos afetos
e das fantasias dos comunistas latino-americanos; daí também partiram vários
contingentes de guerrilheiros para tentar implantar “ditaduras do proletariado”
nos países do hemisfério sul. Deste pequeno núcleo começou a ser espalhada na
América do Sul uma rede de dissolução de nações.
Na África e na Ásia, os
países colonizados desde séculos anteriores lutavam bravamente pela sua independência,
e quase invariavelmente a conquistavam. Os costumes mudavam com enorme
velocidade, impulsionada por sistemas de comunicação de âmbito global e o
acesso quase irrestrito de todas as classes sociais de todos os países aos
aparelhos de televisão.
No campo das análises
históricas e sociais, enquanto Mac Luhan anunciava a “Aldeia Global” em que
todos teriam quinze minutos de fama, Alvin Toffler explicava os mecanismos
tecnológicos e sociais que haviam sido acionados pelo avanço cientifico e pela
dinâmica demográfica, anunciando “O Choque do Futuro” e a “Terceira Onda”
civilizacional, que criariam um mundo radicalmente diferente, possivelmente
caótico.
Notadamente, havia uma
conjunção de influências que estavam sacudindo as estruturas mundiais. Com grande
dose de razão a proposta de “criogenia
econômica mundial” não foi aceita. Mas os seus proponentes não desistiram,
e em 1987 lançaram um segundo relatório cujo nome foi “Nosso Futuro Comum”. A
elaboração deste documento foi conduzida pela ex-primeiro-ministro da Islândia,
Gro Harlen Burtland, e por isso também ficou conhecido como “Relatório de
Burtland”. Este foi o documento inaugural das propostas do Desenvolvimento
Sustentável.
* Texto escrito em abril de 2021.

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