PRESSUPOSTOS DO SUSTENTABILISMO

 

Pressupostos assemelham-se à pilares de sustentação

Ivomar Schuler da Costa

Sustentabilismo é a ideologia que reuniu o ecologismo extremista à economia e transformou-se em um movimento sócio-político. A face concreta deste movimento é a proposta do “Desenvolvimento Sustentável”. No cerne, o sustentabilismo é uma ideologia que se pretende científica como forma de obter legitimidade.

Para combater as propostas da ideologia sustentabilista é preciso começar pelos seus pressupostos. Por esta razão apresentamos alguns desses pressupostos para tomarmos conhecimento, ainda que superficial, daquelas crenças que lhes são subjacentes e que dão direção a este movimento, embora na maioria do tempo não sejam mencionadas. E justamente por não seres colocadas a público é que se tornam perigosas. Sem debate aberto não há proposta honesta.

Pressupostos de uma teoria, de uma ideologia, de uma tese, são como os pilares de sustentação de um prédio. A diferença é que os pressupostos geralmente são "invisíveis", isto é, não são claramente apresentados.

Abaixo citamos alguns destes pressupostos:

O pessimismo antropológicoos sustentabilistas consideram o humano como um ser essencialmente mau, portanto, irrecuperável; um condenado a praticar o mal eternamente. A destrutividade é uma característica deste ser amaldiçoado. Por isso o ser humano destrói as coisas boas do universo, como a natureza física, por exemplo. Para os sustentabilistas melhor seria que todos os seres humanos desaparecessem da face da Terra. Esta é uma das razões pelas quais numa das suas primeiras formulações, propunham o crescimento zero da economia. Os efeitos dessa ideia, caso fosse colocada em prática, seria a aniquilação da maioria das populações dos países pobres por meio da miséria, da subnutrição, das guerras e das doenças. Na verdade, estamos vimos uma pequena amostra dessas proposta agora, durante a suposta pandemia do Coronavirus-19. A ideia é a seguinte: se os seres humanos são maus e destroem o meio-ambiente, porque manter vivos milhões de pessoas que não contribuem com a economia mundial, mas, ao contrario, apenas consomem os recursos? A eliminação desta parte improdutiva da humanidade não preservaria uma quantidade enorme de recursos para a parte dos humanos que é economicamente produtiva, apesar de serem também essencialmente maus?!

O efeito borboleta: Uma dos pressupostos fundamentais dos sustentabilistas é a do “princípio da sensibilidade às condições iniciais”, ou como é vulgarmente conhecido: “efeito borboleta”.  A ideia expressa no princípio tornou-se famosa a partir de sua divulgação no primeiro filme da franquia de Hollywood, nos anos noventa, “O Parque dos Dinossauros”. Neste filme uma das personagens que é paleontólogo, cita a seguinte hipérbole para explicá-lo: “o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um furacão no Texas”. E como hipérbole, é um exagero. Este princípio estatui que pequenas variações nas condições iniciais de um fenômeno podem gerar efeitos desproporcionais em outro local e em tempo incerto. Mas o princípio vai mais adiante ao afirmar que uma vez estabelecidas variações, elas podem se espalhar por todo o sistema e gerar infindáveis e progressivas perturbações até a dissolução completa da ordem do sistema em que se manifesta.  Certamente, essa hipótese é bastante plausível e até certo ponto foi comprovada, porém, o uso dela pelos sustentabilistas contém um ponto fraco que ainda não foi percebido, sobretudo por quem é alvo desta ideologia da sustentabilidade: se é verdade que existe a sensibilidade às condições iniciais, então, como podem eles afirmar que não são as suas ações que geram as variações que podem levar à destruição dos ecossistemas e das populações que abrigam?

O efeito borboleta, por já ter se tornado popular, contribui para a maior e mais rápida aceitação do sustentabilismo, porquanto, para o cidadão comum, carente de informações e impossibilitado de exercer raciocínios mais profundos, transmite uma aura de certeza facilmente assimilável pelas massas populares. Assim, o popular passa de uma ideia que atingiu a vulgaridade para outra ideia que desconhece completamente, mas que para ele apresenta-se como completa e perfeitamente racional.

A crença na posse do conhecimento total acerca dos processos da natureza: Deveras, o desconhecimento acerca dos processos físicos e não-físicos presentes na natureza é muito maior do que aqueles que são conhecidos. Assim, como os sustentabilistas podem ter tanta certeza de que estão fazendo a coisa certa? Foram analisados todos os riscos das suas propostas? Qual a garantia que oferecem aos países que obrigam a adotar os seus padrões? Nenhuma, absolutamente nenhuma. Portanto, as propostas sustentabilistas são tão perigosas quão supostamente perigosas são as práticas não-ecológicas que atribuem ao Brasil, por exemplo.

A verdade é que ninguém, nenhum uma plêiade de cientistas detém todo o conhecimento. Na verdade, se tal fato ocorresse, eles seriam deuses e não mais seres humanos e a ciência tornar-se-ia religião. A ciência é sempre incerta, baseando-se em conhecimentos e certezas provisórias. Tanto isso é verdade que a certeza de hoje se transforma facilmente na incerteza de amanhã. Como ninguém é detentor do completo conhecimento, por melhores que sejam os modelos criados para explorar um cenário futuro, jamais ele conseguirá representar e incluir todos os fatores causais e suas relações interativas. Acreditar cegamente na possibilidade de qualquer modelo ou hipótese representar a realidade é, no fim das contas, um perigo real.

A ciência como único conhecimento verdadeirona luta contra a supremacia da religião como fonte única da verdade a ciência passou de inferior a superior, e acabou por inverter completamente os papeis. A ciência, apesar de ser apenas uma das formas de conhecimento, entre o empírico e o religioso, e ter a característica de não alcançar a verdade, mas somente a certeza, e assim mesmo de forma precária, pois toda e qualquer teoria sempre poderá ser criticada e alterada quando novas perspectivas dos fatos se apresentarem, ou quando fatos novos demonstrarem a sua falsidade ou relatividade; a ciência é baseada e consenso, porém, ainda assim um consenso restrito, porquanto todas as hipóteses e teorias sempre terão concorrentes.

Em ciência, a unanimidade é uma heresia. A ciência verdadeira não admite dogmas e nem qualquer dos seus princípios deve ser imposto. Tudo que não corresponde a isso não é ciência, mas outra coisa. Os defensores da ideologia do Desenvolvimento Sustentável, no entanto, tratam as suas propostas como dogmas religiosos, isto é, indiscutíveis. Elas a revestem de uma imagem de ciência para aproveitar-se da autoridade social conquistada por esta, ou melhor, pela percepção de progresso trazida pelas tecnologias geradas pela ciência. Para reforçar a percepção de que a ideologia da sustentabilidade não pode ser questionada, aplicam-lhe o rótulo de proposta baseada em fatos, hipóteses e teorias “comprovadas cientificamente”. Neste caso, a própria ciência tem de ser considerada como “o conhecimento verdadeiro”, em detrimento do conhecimento empírico, resultante de práticas ancestrais de diversos povos, conhecimento que sempre resultaram em condições de existência adequada a estes povos; e em detrimento do conhecimento religioso, assim considerado aqueles normalmente adquiridos por meio de  revelações espirituais, como a Bíblia, por exemplo, dentro das tradições judaico-cristãs.

A Infalibilidade dos cientistasmas a ciência não existe concretamente. O que existe é uma comunidade de agentes da ciência e uma rede de apoio a eles para a produção de conhecimentos. A partir do inicio da Idade Moderna a supremacia da religião como única modalidade de conhecimento verdadeiro começa a ser contestada pela ciência, em princípio, por intermédio do método experimental. A partir do Século XVIII a ciência começa a mudar não somente os paradigmas, mas faz sentir os seus efeitos também na tecnologia, gerando uma fortíssima ruptura tecnológica que se convencionou chamar de Revolução Industrial. No Século XIX, ocorre a segunda fase desta revolução, com graves impactos econômicos, sociais e intelectuais. A religião sofre sérios abalos. Mas foi somente no Século XX que a ciência realmente passou a dominar, tornando praticamente ilegítima qualquer afirmação que não tivesse o selo da cientificidade. Nessa carreira, os cientistas adquiriram o status de autoridades supremas. Em alguns países, como a França, os cientistas  passaram a ser adorados praticamente como os santos da Igreja Católica: foram construídos mausoléus para alguns dele (Pasteur, por exemplo), suas anotações, seus equipamentos de pesquisa, seus cadernos, livros, escrivaninhas, tudo passou a ser adorado como se fossem relíquias dos santos medievais. E, por tudo isso, nas últimas décadas, os cientistas passaram a ser acreditados como pessoas infalíveis, das quais, contrariando o espírito da ciência, não se deve desconfiar jamais.

A superioridade absoluta de alguns grupos humanos: etnocentrismo, tecnocentrismo e tecnocracia: intrínseca à ideologia do desenvolvimento sustentável está um sentimento profundo e milenarmente arraigado de superioridade de alguns grupos em relação a outros. A superioridade entre indivíduos e entre coletividades é um fato facilmente perceptível e compreensível, dado que as condições em que cada um está envolto podem lhe criar ou obstáculos, ou  facilidades, ao desenvolvimento das suas capacidades. No entanto, o problema reside no sentimento de que esta superioridade é absoluta, ou seja, independe de qualquer fator extrínseco. Tais grupos consideram que o simples fato de existirem e de serem quem são os torna superiores aos outros. A conseqüência disso é que este sentimento os induz a acreditarem que tem o direito de submeter os supostos inferiores ao seu domínio, cabendo a estes servi-los de acordo com as suas conveniências. Este sentimento, que se pode chamar de orgulho, manifesta-se de diversos modos. Não se pode dizer que é um orgulho racial porque na atualidade os seus componentes são oriundos de diversos grupos raciais. A verdade é que sempre procuram uma linhagem, seja genética, seja cultural, seja a filiação a determinada religião. Do ponto de vista antropológico pode-se denominar este sentimento de etnocentrismo, embora a sua diversidade. Outra forma que hoje está muito evidente é a que se manifesta como tecnocentrismo: há um hiato tecnológico enorme entre grupos ou empresas na atualidade. Existe um grupo seleto de empresas que dominam tecnologias capazes de submeter grandes contingentes populacionais. Isto os faz se sentirem como proprietários da humanidade e, por isso, com o direito de imporem suas ideologias absurdas. Mas uma variante do tecnocentrismo, que é a tecnocracia, consiste no poder social exercido pelos técnicos de diversas áreas. Com técnicos queremos designar todos aqueles que detêm alguma formação científica em qualquer área, seja nas engenharias, na medicina, na matemática, física, química, na economia e na administração, bem como nas ciências militares. A tecnocracia pode ser tão somente uma influencia social, assim como o real exercício do poder. Quando os sustentabilistas apregoam as soluções que propõem como as únicas verdadeiras, ou as únicas capazes de salvar a humanidade de uma catástrofe ambiental, inclinadamente estão afirmando a própria superioridade relativamente ao pensamento de outros grupos, provavelmente minoritários em poder de influência, em que pese o seu tamanho em quantidade.

 


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